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Como quem não quer A Coisa

Como quem não quer A Coisa

28
Fev20

Fábula #12

O Coiso

Afonso chega ao trabalho e liga o computador. Enquanto a máquina carrega todas as aplicações instaladas, vai preparar um café, recordando o dia anterior. A troca de galhardetes tinha-o deixado animado, no entanto não tinha como contactá-la, pois não tinham trocado contactos.

Pega na chávena cheia do delicioso líquido fumegante e retorna ao posto de trabalho, sorrindo com a lembrança de uma farpa mais incisiva que tinha terminado a conversa. Havia saído por cima, claramente. E não podia esperar pela próxima oportunidade. Talvez amanhã ela fizesse outro comentário e ele pudesse responder com a sua costumeira provocação… Pena o perfil dela estar bloqueado, senão já lhe tinha enviado um email.

Já sentado, percorre rapidamente o email para procurar tópicos de resposta urgente. Resolve os casos mais prementes e abre o browser, como habitualmente, para aceder ao email pessoal. Tinha ouvido alguns lembretes sonoros no telemóvel, provavelmente publicidade, mas gostava de manter a caixa limpa. Ao abrir o email, abre-se-lhe um sorriso na cara “Já estás!”. Entre os previsíveis emails de publicidade encontrava-se um email com o título “Olá”, de uma mulher chamada Manuela. Só podia ser a Flausina, com quem trocava provocações há algumas semanas.

Responde ao email rapidamente, com a habitual atitude a roçar a arrogância e recebe uma resposta condizente. Trocam emails durante toda a manhã e, na hora do almoço, ele lança-lhe a escada. “Queres encontrar-te comigo?”

A resposta foi rápida e telegráfica. “Onde e quando?” Ele responde onde está naquele momento e que pode passar a tarde com ela. E ela nos minutos seguintes escreve “Não saias daí, dá-me meia hora”. Em anexo, uma fotografia tirada num wc, mostra uma pessoa baixa, em forma e vestida de forma profissional. A cara ficou tapada pelo flash, o que lhe aguçou ainda mais a curiosidade.

Algum tempo depois, Afonso vê o mesmo traje profissional a entrar no restaurante e a olhar em volta. Afonso faz-lhe sinal e, à medida que ela se aproxima da mesa, um sorriso aflora-lhe nos lábios. Ela senta-se na mesa, sem sequer o cumprimentar, faz sinal ao empregado, pede um café e uma água sem gás com voz rouca e ligeiramente afogueada e finalmente olha-o directamente nos olhos e diz-lhe: “Tu és completamente maluco, não és?”. Se esta frase fosse escrita num email soaria agressiva, mas dita, olhos nos olhos, com aquele sorriso meio assustado e linguagem corporal defensiva, mostrava que Manuela não estava habituada àquilo.

“Sabes que sim… Ou ainda não tinhas percebido?”

“Não queria acreditar que chegasses tão longe.”

“Mas cheguei. E agora, qual é o teu plano?”

“Sair daqui o mais rapidamente possível.”

“A conta, por favor!”

 

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