Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Fábula #8

por O Coiso, em 17.10.17

Olhei para o telemóvel e vi a tua cara sorridente, como via sempre que me ligavas. Infelizmente, já raramente o fazes, certamente não por falta de vontade mas porque refizeste a tua vida ao fim de tantos anos de loucura. A sorrir por dentro, atendi a chamada de forma brincalhona, apenas para ser recebido por uma voz indignada e triste. O homem que escolheste para refazer a vida revelava-se, na realidade, um valente sacana e assim que o descobriste pegaste nos teus tarecos e, sem mais uma palavra, saíste da vida dele definitivamente. É mesmo teu, este gesto. Despediste-te do teu trabalho, voltaste para tua casa de armas e bagagens e após dois dias a reorganizar-te, ligaste-me a pedir um ombro amigo.

Como sempre, larguei tudo o que estava a fazer e fui ter contigo. Longe vão os tempos em que era um cachorro amestrado nas tuas mãos mas ainda resta um pouco dessa altura em que não importava onde estivesse ou com quem, bastava o telefone tocar e a tua cara sorridente no visor para eu imediatamente largar tudo e concentrar-me em ti, na tua voz, na lembrança do teu sorriso contagiante e no teu corpo sinuoso que me enlouquecia e me deixava com uma deliciosa variedade de priapismo. Desta vez, não abandonava nada que não pudesse ser feito no dia seguinte, pelo que foi sem peso na consciência que entrei no carro e percorri os cinquenta quilómetros que nos separavam.

Quando cheguei à rua familiar, estacionei num espaço livre e ainda antes de sair do carro vejo-te, bela como sempre, a sair do prédio. Sem aquele sorriso habitual, sem uma peça de roupa colorida, sem o cabelo magnífico a cair-te sobre os ombros. Reconheço apenas a sombra da pessoa maravilhosa que conheci naquela mulher envelhecida, com os olhos inchados e roupa desmazelada. Aproximas-te e abraças-me como só tu me abraças, um abraço de torno que me deixa sem ar. Carinhosamente, afasto-te de mim e olho-te nos olhos apenas para os ver marejados. Sorrio ternamente, digo-te para não dizeres uma única palavra e abro-te a porta do passageiro a convidar-te a entrar. Vamos em silêncio até a um bar na praia, pedimos um lanche ajantarado e apenas aí te peço para contares o que se passou.

Na hora seguinte, praticamente não falei. Apenas ouvi com atenção, tentando fazer apenas comentários adequados ao tema e interjeições de espanto ou indignação. Pelo meio, o lanche ajantarado chegou e foi acompanhado por um bom vinho, para te soltar as emoções. No final, não me deixaste pagar a conta e fomos dar um passeio pela praia. Aí continuaste a desabafar e finalmente soltaste todo o desespero que te ia no coração, salgando o meu pólo em mais um abraço irrepetível.

Levei-te a casa já tarde e ainda no carro agradeceste-me a paciência, a presença e o ombro amigo. Parecia que a noite ia ficar por ali, quando saí do carro e como habitualmente abri a tua porta e abracei-te novamente. Neste último abraço, olhaste-me nos olhos e, contrariando a despedida informal mas ternurenta do beijinho na bochecha, puxaste-me ternamente para ti e beijaste-me os lábios. Primeiro docemente, um encosto quase infantil, para depois sentir a tua língua a procurar uma brecha nos meus lábios. Abri a boca e deixei as nossas línguas fazerem aquilo que eu desejava fazer ao teu corpo. Encostei-me ao carro e senti o teu corpo bem junto ao meu.

Perguntaste-me se queria subir e passar a noite contigo. Como seria possível eu não aceitar?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)




Pesquisar

Pesquisar no Blog

Outras Coisas

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D